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Notícias › 13/10/2014

Comunidades católicas virtuais? Não é melhor “cairmos na real”?

 

Quando foi a última vez que você sentiu aquela vontade quase incontrolável de dar um pulo da cadeira, levantar a voz e proclamar: “Espere aí! Isso não é verdade!”? Aconteceu comigo faz algumas semanas. Eu estava ouvindo um colega falar das mídias sociais como o “pivô da Nova Evangelização”. Ouvi de mente aberta. Ele começou a exaltar os méritos da internet, em especial dos elementos de áudio e vídeo, que, para ele, estavam muito acima dos méritos da palavra impressa.

Ele declarou que “o texto é chato. Só pode ser usado para transmitir informação. O texto não sacode a imaginação nem agita as emoções. O texto não pode ser usado para formar comunidades. Com o surgimento da internet e das redes sociais, nós podemos começar a mover os corações e a formar comunidades no mundo virtual de um jeito que as palavras impressas jamais conseguiriam”.

Foi aí que eu senti aquela vontade quase incontrolável de dar um pulo da cadeira, levantar a voz e proclamar: “Espere aí! Isso não é verdade”!

Aparentemente, ele não ouviu falar (e muito menos leu) a Regra de São Bento ou os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, textos que, literalmente, formaram comunidades durante séculos. Eu duvido que ele conheça a Divina Comédia, de Dante, que, sem dúvida alguma, “sacudiu a imaginação”. Será que ele nunca leu nenhum poeta? A poesia é capaz de provocar turbilhões emocionais! Será que ele não leu “O Senhor dos Anéis”? “Nárnia”? Esses textos não “sacodem a imaginação”?

Desanima um pouco, mas não surpreende, encontrar jovens entusiasmados que “se atiram de cabeça” nas mídias sociais, mas que não dão quase nenhuma evidência de terem hábitos sérios de leitura. O que me alarma, no entanto, é o possível desconhecimento dos efeitos prejudiciais, para a vida católica, dessa acrítica exaltação da ideia de que “a internet e as mídias sociais vão nos salvar”.
Quero dar alguns exemplos.

Em “Why Johnny Can’t Preach: The Media Have Shaped the Messengers” [“Por que Johnny não sabe pregar: como a mídia condicionou os mensageiros”], o autor T. David Gordon escreveu que uma das razões de Johnny não conseguir pregar não é tanto o que foi ensinado a ele no seminário (que pode ser muito bom), mas certas coisas que Johnny trouxe consigo para o seminário: uma capacidade de atenção e de imaginação moral atrofiada por uma “dieta” baseada em televisão e internet/mídias sociais. Neil Postman é visto hoje como um profeta por ter feito soar o alarme da influência avassaladora da televisão em 1987 com o clássico “Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business”. Os dois autores deixam claro que uma confiança acrítica na mídia eletrônica pode prejudicar a capacidade das pessoas de receber o evangelho em vez de expandi-la. Quem duvida disso não passou os últimos vinte anos lendo ensaios de estudantes e tentando envolver os alunos em conversas, como eu passei.

O que eu acho especialmente alarmante em relação aos defensores acríticos das “comunidades virtuais” é que eles parecem não saber que as comunidades “virtuais” não são comunidades reais: elas podem ser apenas distrações, ou, pior ainda, substitutos da real vida de comunidade. As comunidades virtuais podem ser “ligadas” ou “desligadas” à vontade; elas não exigem a nossa presença pessoal, não implicam uma exigência moral do nosso tempo e da nossa atenção. Mas as pessoas reais e as comunidades reais exigem. E é por isso que eu acho que algumas pessoas fogem para o “éter do virtual”: porque é muito trabalhoso lidar de verdade com a pessoa real do outro lado da mesa do café-da-manhã. No mundo online, sempre existe algum outro lugar para onde correr quando a comunidade virtual demanda muito esforço, intimidade ou compromisso. As pessoas reais, em casa, na paróquia, no trabalho, estão bem ali na nossa frente e têm o “mau hábito” de conhecer os nossos defeitos e as nossas promessas não cumpridas. É muito mais fácil abrir uma nova aba no navegador, seguir outra conta do Twitter ou encontrar um novo grupo de “amigos” no Facebook. Usadas com entusiasmo demais e com prudência de menos, essas várias mídias sociais comprimem a nossa imaginação, se opõem à contemplação, sacrificam o silêncio e nos distanciam das pessoas reais que precisam de nós. Pessoas, por sinal, que são feitas à imagem e semelhança de Deus.

“Ah, padre, mas o senhor não está se contradizendo? Não está usando o mesmo meio de comunicação que está condenando?”. Não, eu não estou condenando nada nem ninguém. Nós, jesuítas, fomos pioneiros no Ministério da Palavra durante séculos e vamos continuar usando todos os meios bons e oportunos para alcançar as pessoas. Mas alcançá-las não é suficiente. Para onde vamos levá-las? Como é que podemos ajudar a formá-las? Na correria das mídias sociais, essas questões parecem esquecidas. Assim que atrairmos a atenção das pessoas, como vamos satisfazer as suas necessidades humanas e espirituais autênticas? Todas as pessoas, mas especialmente a nossa juventude, têm fome de comunidade genuína, de valores verdadeiramente compartilhados e de interesses cultivados em comum. Vou dar dois exemplos.

Duas ou três vezes por semestre, eu organizo a “Noite jesuíta de leitura” para os meus alunos. Fazemos um jantar simples, nos reunimos em torno da mesa e jantamos como uma família. O ponto alto da noite é quando, ainda ao redor da mesa, recitamos poesias: às vezes nossas, às vezes de outros, às vezes lidas, às vezes de memória. Passamos horas na mesma sala, conversando uns com os outros, mantendo contato visual, formando um tesouro de memórias e de vínculos. Sem eletrônicos. A única reclamação dos participantes é que eu não organizo esses jantares com mais frequência.

Aos domingos, depois da missa, eu convido os alunos para um café local, onde avaliamos a minha homilia (tanto na forma quanto no conteúdo), discutimos as escrituras do dia (textos “ligeiramente anteriores” ao surgimento da internet, conforme eu costumo recordar) e falamos do que Deus está fazendo em nossas vidas. São horas de conversa, de contato olho no olho e, novamente, de formação de memórias e vínculos. Sem eletrônicos.

Nas duas situações, nós escolhemos viver como católicos que amam o Senhor, que amam a linguagem falada e escrita e, mais importante, que se esforçam muito para aprender a amar uns aos outros – em pessoa. Esse trabalho duro, com as suas muitas alegrias, também pode ser frustrante, às vezes. E sempre exige tempo. Mas é assim que as comunidades reais se formam. Os meus alunos, muito embora influenciados pelo mundo eletrônico, deixam de lado o prazer e o glamour dos seus aparelhos durante esses encontros e prestam atenção aos outros e à presença de Deus que se percebe ali no meio. Tudo isso é bem diferente dos brilhos e barulhos e da fragmentação da atenção que experimentamos na internet, na televisão, nas mídias sociais e nas comunidades virtuais.

Para terminar, quero propor uma imagem (com emoção, espero) que, ao contrário do que foi dito pelo jovem mencionado no início deste texto, será comunicada precisamente via texto, sem recurso a vídeo nem a áudio. Certa noite, eu li de cabo a rabo um entusiasmante e popular livro sobre a Igreja e as novas mídias. Ao finalizar a leitura, me perguntei se as mídias sociais poderiam ser a base para a evangelização e para a formação de comunidades, tal como o autor tinha prometido. De repente, acabou a luz. Eu me vi sozinho no escuro.

No meu próximo texto, vou abordar algumas formas muito eficazes que foram sendo usadas para garantir que os nossos jovens não se tornem católicos maduros. Enquanto isso, vamos continuar rezando uns pelos outros.

Ah, sim. E agora, desligue um pouco o seu computador e vá conversar com alguém real.

Por Pe. Robert McTeigue via Aleteia

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